quinta-feira, maio 06, 2010

O velório

Nem todos, chorarão minha ida
Nem os chacais, nem os corvos
Minh’alma desvairada
Perambula, vagando os portos

A luz é um pequeno ponto
Enquanto as trevas são o todo à sua volta
Os cães uivam ao badalar estridente
Enquanto choram os que ficam e olham

A mãe me disse que ele está ali, dormindo
Está apenas a descansar

Retirar-me-ei então, daqui sorrindo

Está tarde e quero também me deitar


A vó brigou por terem me trazido aqui
Disse que não deveria ver nem compreender
Que noite esquisita e que fim notório
Velas, lágrimas e um caixão
Esta foi a vez, em que pequeno, fui a um velório


Ederson R. Zanchetta – 23 de abril de 2010

segunda-feira, maio 03, 2010

Antítese


O seu prêmio? — O desprezo e uma carta de alforria
quando tens gastas as forças e não pode mais ganhar
a subsistência. (Maciel Pinheiro)


Cintila a festa nas salas!
Das serpentinas de prata
Jorram luzes em cascata
Sobre sedas e rubins.
Soa a orquestra ... Como silfos
Na valsa os pares perpassam,
Sobre as flores, que se enlaçam
Dos tapetes nos coxins.

Entanto a névoa da noite
No átrio, na vasta rua,
Como um sudário flutua
Nos ombros da solidão.
E as ventanias errantes,
Pelos ermos perpassando,
Vão se ocultar soluçando
Nos antros da escuridão.

Tudo é deserto. . . somente
À praça em meio se agita
Dúbia forma que palpita,
Se estorce em rouco estertor.
— Espécie de cão sem dono
Desprezado na agonia,
Larva da noite sombria,
Mescla de trevas e horror.


É ele o escravo maldito,
O velho desamparado,
Bem como o cedro lascado,
Bem como o cedro no chão.
Tem por leito de agonias
As lájeas do pavimento,
E como único lamento
Passa rugindo o tufão.

Chorai, orvalhos da noite,
Soluçai, ventos errantes.
Astros da noite brilhantes
Sede os círios do infeliz!
Que o cadáver insepulto,
Nas praças abandonado,
É um verbo de luz, um brado
Que a liberdade prediz.

(Castro Alves 1847-1871)

domingo, abril 25, 2010

Vermelho não de amor

Cuidar e amar feito um cão
Caçar e matar feito um tigre
Palavras e sentimentos de ódio
Queimam a vista, ardem os olhos
Aceleram agora um coração
Que não por paixão, bate descompassado

É tão infeliz e soberbo
Que eu nem deveria continuar
A dar-lhe atenção e pérolas

Tudo o que há em altas dosagens pode ser perigoso
Inclusive o dom de sentir e dizer
Os minutos de vida que este ódio me tomou
Usei para escrever-te isto
Mal acredito estar hoje escrevendo
Um poema ao meu inimigo

Ederson R. Zanchetta – 23 de abril de 2010

quinta-feira, abril 08, 2010

A Fidelidade e a Infidelidade

Uma sala escura. Apenas uma luz fosca em cima de uma pequena mesa redonda. Dois espectros, sentados em cadeiras dispostas uma de frente para a outra, iniciam um diálogo:

Fidelidade: antes de iniciar nosso diálogo, gostaria de lembrar-te que somos irmãs, separadas apenas e tão somente por um prefixo de negação. Creio, portanto, que chegaremos a um consenso.

Infidelidade: você e essa mania insípida de entendimento, esse medo inato do choque. Não podemos simplesmente conversar?

Fidelidade (indiferente): só achei importante ressaltar…

Infidelidade: julgo seu discurso fraternal como uma boa forma de introdução. Responda-me uma dúvida: por que, afinal de contas, você tem essa necessidade de manter tudo sobre controle? Concluo que por esse motivo você não serve aos seres humanos: eles pensam que controlam tudo, mas não controlam absolutamente nada. Por essas e outras, sou uma opção muito mais adequada ao modo de vida deles.

Fidelidade: por favor, não entremos no mérito do caráter humano. Vejo-me como uma escolha. Se existe um casamento com a disposição de divisão, doação e comunhão não existem motivos para que o casal esconda nada um do outro. Reitero: não sou uma regra, sou uma opção. A relação só é válida se a verdade prevalece. Esconder uma traição é mentir a si mesmo e à pessoa que você diz amar. Uma relação baseada em mentiras simplesmente não é uma relação, é um embuste. Após uma traição, cedo ou tarde, o pacto de intimidade e cumplicidade desmonta feito um castelo de cartas. É o começo do fim inevitável!

Infidelidade (ríspida): você e suas regras estúpidas. Por que citou o casamento? Só depois de assinar uns papéis e fazer uma cerimônia fora de moda é que as pessoas têm a necessidade de serem verdadeiras umas com as outras? Acho que o jogar limpo deveria ser uma regra absoluta desde o primeiro encontro. A vida, entretanto, não é simples nem justa. De tanto eles jogarem limpo, acabam se sujando. Por isso, continuo como a melhor das opções. Os seres humanos precisam esconder seus absurdos uns dos outros.

Fidelidade (indignada e irônica): Meu Deus, é um caso de bipolaridade! Quer dizer que não concorda com sua natureza, mas a enxerga como a mais adequada, é isso?

Infidelidade (fria e falando baixo): não sou bipolar, sou prática, pé no chão e realista. Tenho consciência de que relações se desgastam, as pessoas se entediam uma com as outras e precisam buscar válvulas de escape. Admitir uma traição é um erro, já que o ego destroçado do ser humano não resiste ao fato de que seu parceiro está dividindo o leito com outros. Essa verdade, apesar de nobre, destroça a relação, o traído e o próprio traidor, que se remói em culpa da mesma forma. E você aí, vivendo em um mundo de fantasias…

Fidelidade (desolada): você não se sente péssimo pelo fato de no fundo ser contrário à sua própria natureza? Você é uma romântica de merda e sabe disso.

Infidelidade (serena, acende um cigarro): não tenho motivos para me sentir péssima. Eu sou um amparo à miséria humana. A traição é um traço intrínseco deles e deve sim ser acompanhada pela falsidade para que as relações não fracassem. Sem o trinômio mentira, hipocrisia e traição seria impossível constituir uma família.

Fidelidade (pede um trago do cigarro): Não acho. Existem pessoas que se conscientizam das dificuldades de se dividir uma vida a dois e fazem da verdade e da honestidade a principal marca da relação. Duas pessoas que realmente se amam não podem mentir uma para as outras, por mais que doa. A verdade sustenta o amor. Sem ela, o amor não existe.

Infidelidade (arranca o cigarro da mão da fidelidade e desdenha): esse casal que você está descrevendo perderia a libido um pelo outro cedo ou tarde. E, desculpe, mas você sabe que entre as pulsões do inconsciente humano o sexo é tão fundamental quanto a fome e, para agravar o quadro, as relações abertas estão fadadas ao fracasso. O ser humano é possessivo, mas gosta de perversão, gosta de ter na cama uma pessoa por quem sinta amor e ódio. E é egoísta, só ele tem o direito a esse pequeno delito, o parceiro não. Eu, rondando a situação sem ser notada, alimento o amor e todos ficam felizes.

Fidelidade (dona de si): acho que você chegou a um ponto interessante. Presumo que a razão de suas forças serem maiores que as minhas consiste no fato de que as pessoas nunca terminam se relacionando com aquelas que verdadeiramente amam. Vou tentar explicar. Um homem ama determinada mulher. Ela, por sua vez, não o ama. Ele se humilha, declara seu amor e sofre sem ser recompensado. Desiste e acaba se relacionando com outra mulher apenas para fugir de seu antigo e eterno amor. Acho que grande parte dos casais não se ama e por isso é infiel. Se você realmente ama uma pessoa, não tem vontade de traí-la; se tiver vontade, a reprime, e se não reprime, revela a verdade e agüenta as conseqüências. Logo, sua natureza, cara infidelidade, é o puro resultado da falência do amor. Não me venha com essa bobagem de que é você quem o alimenta.

Infidelidade (confiante): é a velha lei da balança: em uma relação um sempre vai gostar mais do outro. Essa disparidade, que é o padrão humano, desequilibra a situação. Aí que eu entro para salvar tudo. E o melhor: por baixo dos panos, em silêncio. O ser que não ama verdadeiramente a sua parceira complementa suas satisfações com amantes e consegue manter uma relação minimamente estável. O ser que ama, por outro lado, vive conscientemente iludido e fantasia que tudo está bem. Sou o peso que equilibra a balança. Sem mim, seria o caos.

Fidelidade (exasperada): Não, não, não! Você é apenas um produto das fraquezas humanas e da falência do amor. Você é parte do caos. Será que não percebe que você não passa de mais um dos tantos defeitos de caráter do ser humano? Eu sou uma opção, as pessoas podem escolher a verdade. Ser fiel não quer dizer não trair. Ser fiel significa dizer a verdade acima de todas as coisas. Ser fiel é realmente viver uma vida de verdade. Nem que para isso o ser fique e viva sozinho pelo resto de seus dias. Para ser fiel é preciso ser forte de verdade. Só a fidelidade leva o ser humano a ter uma vida. Sem ela, tudo não passa de um embuste! Um ser que não é fiel com ele mesmo nem com quem ama não pode dizer que realmente viveu uma vida! Ele apenas a encenou, a deixou escapar entre seus dedos! Se não quer ser fiel, que aproveite os gozos da liberdade solitária!

Infidelidade (zombeteira): AHAHAHA… Eles não agüentam a solidão. O mundo e a vida são muito cruéis para que eles suportem tudo sozinhos. Eles necessitam de uma companhia, de um porto seguro, mesmo que não passe de encenação. Chega um momento da vida em que eles não suportam e se entregam à vida a dois. É quase uma regra: raros são os que resistem. Você realmente vive em um mundo de fantasias…

Fidelidade (insegura): isso não é verdade… Você mesmo não concorda com essa farsa. Você deveria se unir a mim para despertarmos esses seres sem rumo. Por que não me ajuda? Por que prossegue com essa frieza no olhar?

Infidelidade (reflexiva, acende outro cigarro): o que você não percebe é que ambos somos produtos da mente humana. Pare de pensar que você é uma verdade absoluta, uma salvação ou que você controla suas próprias ações. Quem decide por nós são eles. Lembra-se? Somos irmão, separados apenas por um prefixo. Nós apenas continuamos vagando feito fantasmas. São eles quem possuem o livre-arbítrio para decidirem que caminho seguir. Se ao menos pudessem nos ouvir… Se ao menos soubessem o poder que têm nas mãos… Mas esqueça. Eles estão perdidos demais para enfrentarem a verdade, seja lá qual for ela, a minha ou a sua.

Fidelidade (olhos baixos, pega um cigarro, coloca no canto da boca e acende).

As duas se olham em silêncio… Apagam-se as luzes.

(Autor desconhecido)

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Twist and Shout

Bem, agite seu corpo baby,
agora Gire e grite
Vamos, vamos, vamos, vamos, baby,agora
Anime-se e se exercite bastante
Bem, se exercite bastante querida
Você sabe que você está bem
Você sabe que você me mantém agora
Assim como eu sabia que você faria

Bem, agite seu corpo baby, agora
Gire e grite Vamos, vamos, vamos, vamos, baby, agora
Anime-se e se exercite bastante
Você sabe que você agita, garotinha
Você sabe que você agita muito bem
Venha e agite um pouco mais perto agora
E me deixe saber que você é minha, woo


Ah, ah, ah, ah
Yeah, agite seu corpo baby, agora Gire e grite
Vamos, vamos, vamos, vamos, baby, agora
Anime-se e se exercite bastante
Você sabe que você agita, garotinha
Você sabe que você agita muito bem
Venha e agite um pouco mais perto agora
E me deixe saber que você é minha, woo
Bem, agite, agite, agite, agora baby
Bem, agite, agite, agite, agora baby
Bem, agite, agite, agite, agora baby
Bem, agite, agite, agite, agora baby
Ah, ah, ah, ah


The Beatles

terça-feira, janeiro 12, 2010

Novamente reticências...

(...)
Ai minhas amadas reticências...
Sempre comigo...
Como as amo...

Dizem tanto em tão pouco espaço do papel...


Ederson R. Zanchetta - 12 jan 2010

terça-feira, novembro 10, 2009

ORAÇÃO CELTA

Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalante ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu, fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo, o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.
Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalanto secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.

Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!

sexta-feira, outubro 23, 2009

Lobo Poeta

Soneto ao Poeta...
Trazei-me papel, tinta e pena...
Escreverei o que se passa em meu coração...
Pois que sou poeta e a mim só resta escrever...
Trazei-me tinta e pena...
Escreverei sobre minha carne...
Pois que sou poeta e a mim só resta escrever...
Trazei-me uma pena...
Escreverei com minhas lagrimas sobre a rocha...
Pois que sou poeta e a mim só resta escrever...
Trazei-me uma migalha de amor,
Um reflexo da lua, a chama de uma paixão,
Uma saudade, um espinho pregado numa flor
Onde possa furar o indicador...
Escreverei com esses dedos embebidos em sangue
Sobre as paredes de minha alma...
Pois que sou poeta e a mim só resta escrever...

(SamisXela)

sexta-feira, outubro 09, 2009

Pequeno Esclarecimento


Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.


Mário Quintana

sábado, setembro 05, 2009

Herói

Ele...
Não conhece, nem fala um pouco de tudo.
Não chama muita atenção quando passa, nem quando chega.
Não tem grandes esteriótipos.
Não toca nenhum instrumento, escreve, dirige nada.
Não recebe pares de ligações aos fins de semana.
Nem tem um grande meio social.
Não é centro das atenções em lugar algum.
Não se lamenta e sofre à tôa por qualquer pessoa.
Mesmo na idade problema, não conhece os prazeres podres desse mundo.
Humilde, simples, honesto.
Voltado para o bem da casa e da família.
Simples assim...
Em algum lugar eu precisava dizer que o amo. Faço isto neste escrito.
Vê-me como seu herói, mas na verdade ele é o meu herói.


Ederson R. Zanchetta - 05 de setembro de 2009

quinta-feira, setembro 03, 2009

Bom dia!

O que quebra o silêncio?
Um eloqüênte discurso;
Uma comovente declaração;
Ou um simples "bom dia"!

quinta-feira, agosto 27, 2009

Capa de couro

Minha cabeça dói
E o coração apenas bombeia sangue
Palavras de amor ou de ódio
Escritas no papel
São apenas, preto no branco
O sol vem de dia
A lua vem de noite
É preciso olhar para um lado
E é preciso olhar para o outro
Antes de atravessar a rua
É preciso não falar com estranhos
E não ser sincero com os conhecidos
É preciso ganhar muito dinheiro
E é preciso gastar mais do que isso
Saber somar também
Afinal um mais um será sempre dois
A vida é um presente
E a morte um futuro
O cético vence o romântico
E é preciso viver à ortodoxia
Aquele momento em que me hesitou dizer
Foi apenas um momento de vão silêncio
E não é preciso rimar
Não serve para nada

Ederson R. Zanchetta – 27 de agosto de 2009

quarta-feira, agosto 26, 2009

Queria estar dormindo

Como posso eu, agora assim, dormir?
Se me assolam memórias e lembranças, de quando, da companhia dela
Na minha cama seu suor e seu xampu no travesseiro
A infantil saudade, na minha cabeça abre um berreiro

Os minutos, se tornam horas e minha respiração, está dolorida
O perdido, apaixonado, não quer mais, nada desta vida
Peço que deixem a luz acesa quando fecharem a porta.
Cadê o fôlego, a vitalidade para viver, como sempre vivi, sozinho

Nunca imaginei, precisar tanto do teu pouco de carinho
Está difícil de passar esta noite, eu escrevo, para ver se me vejo
De repente, um pouco distraído. Porque se isto é tudo o que posso amar agora

Então escrevo, para amar neste papel. A carência, o lado carnal, humano, animal
As saudades daquele tempo, em que tudo estava bem, em que a vida era tão simples
Eu hoje aqui, lembrando de você, deitado escrevendo com carinho.

Há uma ebulição de sentimentos, uma excitação, um gozo da libido
Esta madrugada, tão clara e louca, hostil pulsa à minha cara
No meu relógio, não vejo horas, mas sei que já é tarde queria estar dormindo


Ederson R. Zanchetta - 25 de Agosto de 2009

sábado, agosto 22, 2009

O coveiro

Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.

Lá encontrei um pálido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: "Eterno companheiro

Da morte, que matou-te o coração?"
Ele apontou para uma cruz no chão,
Ali jazia o seu amor primeiro!

Depois, tomando a enxada gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente: -
"Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!"


Augusto dos Anjos

quinta-feira, agosto 13, 2009

Mutantes

Bêbados Habilidosos
Mutantes
Envelhecido 12 Anos


O que hoje somos
Não se compara ao que fomos
Ao que fomos antes
Quando éramos bem mais mutantes
E nem mesmo o céu, nem mesmo o céu
Nem mesmo o céu é azul como antes

O amor é a única coisa
Eternamente nova
O tempo passa e ele continua
Botando a gente à prova

Meu bem
Quando eu disser que te amo
Diga que me ama também
Meu bem
Quando eu disser que te amo
Diga que me ama também

quinta-feira, agosto 06, 2009

Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Augusto Dos Anjos

terça-feira, julho 28, 2009

Eufemismo

Há momentos em que eu gostaria de dizer
O que ninguém gostaria de escutar
Há momentos em que eu gostaria de ouvir
O que ninguém gosta de dizer.

Mas se a vida é um jogo de conveniências
A minha hora ainda há de chegar antes de anoitecer


Ederson Radiz Zanchetta - 28 de julho de 2009

terça-feira, julho 21, 2009

Sempre sonhou

Ele sempre foi muito sonhador
As pessoas sempre o avisaram
Viveu sua vida numa outra realidade
De sonhos, sonhador...

Ia de tênis à praia
Não sambava no carnaval
Andava de noite
Falava com estranhos

Muito sonhador
Viveu um equívoco
E as pessoas falavam...
Mas ele só sonhava

Ele não fazia questão
E não se cuidava também
Ele brincava e estava convicto
E olha que sempre lhe falavam...
Mas ele imprudente nunca ouvia
Até que um dia
Acordou

Ederson R. Zanchetta - 21.07.09

quinta-feira, julho 16, 2009

Cidade futura

Olá, lembra-se de mim?
Como pode ter já se esquecido?
Minha dor continua
Minha amarga desilusão
Minha vidinha moribunda

Eu gostaria mesmo de saber...
Por que tudo é assim?
Por que isso assim é tudo?
Quem fez tudo isso conosco?
Que direito tinha?

É, minha querida...
Eu já a tive para mim um dia
Eu já gostei do ar fresco da manhã
Eu já passei por todos esses lugares
E já contemplei meu buraco

Há algum tempo atrás a cidade era menos populosa
As ruas menos movimentadas
Mas isso parece estar mudando...
O lugar está crescendo
As pessoas aumentando...
E a cidade está ficando mais vazia.

Ederson R. Zanchetta – 02 de Março de 2006


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Achei isto no meu pc arquivado...
O que será que estava acontecendo naquela época?